quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O alvo e a seta


De todos os livros que eu li e que me fizeram ler, nenhum me preparou para aquele momento. Estranho que ela falava e eu estava aqui, nessa poltrona, pensando essas coisas. Por esse tempo eu já perdia meu senso de sobrevivência, o do ridículo me abandonara no primeiro gole de vodka, quando aquela frase foi pronunciada. Aquela que resume todos os problemas em uma relação. Uma discussão. Não, não era nenhuma briga, era só um jeito que o seu parceiro encontra de jogar em cima de você o que o atormenta. Eu que sempre corri de conversas, odeio médicos homeopátas e evito terapia, coisa mais descabida ter que pagar a um desconhecido pra que ele te ajude a resolver sua vida. Onde foram parar os amigos? Eles costumavam fazer isso de graça, mas depois que te jogam no ringue, o patrocínio é fundamental, outros chamam isso de trabalho e eu levava um soco atrás do outro, mas eu estava crescido; já nem tinha medo de sangue, mas aquela conversa...

A porta da sala bateu com o vento. Agosto trazia chuva, quem dera agosto fosse agosto só pelo nome, agosto sem agosto. Ele parecia nervoso com a minha proposta e se irritava com o meu cinismo, mas eu não conseguia evitar, era maior que eu. E o pior é que eu gostava do meu poder naquele desespero todo. Ele não aguentou e acendeu um cigarro, ficou trocando ele entre os dedos, tragando aquele câncer de pulmão, pra disfarçar as gotas de suor que escorriam pela nuca em pleno 12º. Algumas vezes esse nosso jogo me irritava. Às vezes era ele, às vezes era eu. Enquanto ele falava, eu olhei pro quadro preferido dele na parede e imaginei 347 formas diferentes de destruí-lo...aquilo me fez um bem!

De cima, olhei-o ainda sentado na poltrona, joguei o resto de licor no tapete novo e deixei o quarto com o casaco pendurado em um dos ombros...o mais cínica que eu pude ser.



7 comentários:

Sarinha disse...

"Enquanto ele falava, eu olhei pro quadro preferido dele na parede e imaginei 347 formas diferentes de destruí-lo...aquilo me fez um bem!"

hahahaaha.
adoooro textos que nascem de aulas que não rendem! kkkkkkkkk
TE AMO! ;D

NatáliaFranco disse...

"Não, não era nenhuma briga, era só um jeito que o seu parceiro encontra de jogar em cima de você o que o atormenta. Eu que sempre corri de conversas, odeio médicos homeopátas e evito terapia, coisa mais descabida ter que pagar a um desconhecido pra que ele te ajude a resolver sua vida. Onde foram parar os amigos? Eles costumavam fazer isso de graça..."


Tu é foda ídola!!!
=xx

Regininha-A! disse...

"... coisa mais descabida ter que pagar a um desconhecido pra que ele te ajude a resolver sua vida..."

É vero!!

BjoO!!! =).

» NaY « disse...

Ainda bem que li o teu post, assim estarei preparada para uma situação tal qual esta... Serei repetitiva, mas é que eu gosto muito da forma que escreves! É sempre bom passar por aqui e ler algo teu.

Xerus
=**

Ludmila Prado disse...

você manda muito bem.
texto tão cheio de vida, da pra sentir o vento, o cheiro, ouvir os roidos.
beijos

darsh. disse...

odeio agosto

crap disse...

agosto, mês do desgosto, né?
"tragando aquele câncer de pulmão" imagem foda essa de tragar o câncer de pulmão.
"Enquanto ele falava, eu olhei pro quadro preferido dele na parede e imaginei 347 formas diferentes de destruí-lo..."
txaaaaaaaaaaaaa gostei da especificidade. especificar as coisas deixa tudo com um ar mais irônico porque as pessoas nunca param para pensar em realmente quantas formas elas pensaram. adoram arredondar ou deixar as coisas muito abertas. centenas, milhares, 347. perfeito. fooooooda.

muito bem. aqui estou também. e também estou em outros lugares, mas só vou me revelar por aqui, por enquanto. (eu não disse? sou tipo deus...onipresente)