terça-feira, 30 de junho de 2009

Enquanto isso


No seu país, da sua língua, eu me perdi;
Ela já não me guiava pelas tuas pernas e aquelas costas eu já amaciara;
São tantas ruas abissais pelo nosso caminho, eu não ousaria mergulhá-las
Nem em tua cara lisa, nem no teu peito peludo.
Fingindo ser doloroso, eu esperava que chovesse
Em mim, em você, por alguns minutos.
São pretas e brancas as nossas listras
São pesadas as nossas pedras, esses nossos ombros
É o que temos de nosso.
Serpentinas e saias, pelando seu corpo.
Você lambe cada passo, pesa cada acento.
Não adianta, eu não aprendo...eu bem que tento.
Eu até juro, perjuro, e, então, realizo.
É tanta falta do que eu esqueço, você sabe.
Vem cá, me desenha as bordas, me deixa te amar.
Eu gosto do seu traço. Só dessa vez.
Me exagera.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

A língua, a saliva, os dentes

Foto de Luiza Padilha - http://www.flickr.com/photos/luly_fun/

- Eu não lembro o nosso último beijo.
-[...]
-[...]
- Últimos beijos não se avisam, não se pedem, são apenas beijos que de alguma forma, significam tanto e tão pouco. O seu cabelo não parecia ter destino, evitando alguma visão certa
à frente,pelo menos era o que parecia. Depois de ajeitá-lo incontáveis vezes, você desistiu. Fez aquela velha cara de abuso completamente linda e aceitou o que ele trouxesse. Aquele vento nunca nos perdoava. A sua blusa era azul e combinava com seus sapatos. O anel rodopiava entre seus dedos, mania. Você cheirava tão bem. Por esses dias, andando na praia, senti aquele aroma. Olhei ao redor, talvez você estivesse pensando em mim. As pessoas alimentam essas teorias de que se você olha no relógio e os números são iguais, alguém pensa em você naquele exato momento, coisa e tal. Talvez, você pensasse em mim e eu em você nos mesmo momentos. Talvez não. O seu pescoço guardava uma mordida da noite anterior, eu era guloso. Esperei você dormir e fotografei você na minha mente. Eu não sei, pra todas as coisas na minha vida, eu sempre tive sensações. Não digo que eu sabia que aquele seria o último. Eu lhe digo que o meu sentir vai além...
-Sabe de uma coisa...você beija com olhos, isso eu nunca vi.
-Eu sei que não.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Por todo o whisky que eu tomei

De May Leao - http://www.flickr.com/photos/mayleao/
A primeira vez que eu te vi, eu pensei: "não!". Não era mais uma questão de raciocínio, eu já formava mil frases bregas e impronunciáveis, até mesmo para mim. A segunda vez que eu te vi, tentava fugir de qualquer forma. Eu tinha medo de acordar pela manhã pensando em você, mas eu nunca consegui controlar o desejo de te ver. Às vezes, o que você me falava me fazia optar sempre pelo outro caminho. Na terceira vez que te vi você estava segurando aquela vodka, eu quis parecer melhor. Pensei se meu perfume chegava em você e fui dormir pensando em como rir de você na segunda com meu jeito descolado falso e aquele sorriso idiota que é impossível não soltar quando eu estou no seu raio de visão. Queria não ter olhado fundo nos seus olhos. A quarta vez em que te vi foi como morrer um pouco. Eu era tão cheia de besteiras e achava que ficar chateada com você iria resolver as coisas. Eu digo morrer porque, vez ou outra, você me dói. Na quinta vez em que eu te vi, você tinha outra garota, e ela me parecia tão bonita...tão mais que eu algum dia possa ter me achado. Parecia ser natural para ela ser tão linda. Imediatamente, imaginei o que você falaria pra ela, numa noite, passeando pela praia. Algo como "eu te amo". Talvez soasse sincero. Doeu respirar nesse momento. Você estava mudando e eu me sentia tão só, com meus discos. Na sexta vez que eu te vi, eu ainda pensava tantas idiotices, como quando eu quis casar com você no meio do avião e como eu queria ter escrito aquela música pra você. Você me parecia tão abatido, mas eu não me sentia mais a vontade para perguntar. Na sétima vez em que te vi, eu não soube o que fazer...então lembrei que era sempre assim. Perguntei pela sua namorada e você deu de ombros. Não era o que eu queria ouvir. O fato dela não mais assegurar o extravasar dos meus sentimentos me perturbou. Na oitava vez que eu te vi, quis te chamar de idiota. Eu fiz parecer que você não era nada pra mim, até imaginei vários diálogos destruindo sua auto-estima, que diga-se de passagem, é bem alta. Eu entrei pra aula de violão e quis te falar, mas eu me calei e esperei ficar cega com a sua presença. Se você tivesse ficado comigo, o atum nunca teria entrado em extinção; aquela guerra nunca teria acontecido; aquele presidente seria diferente. Eu lembro de cada beijo que eu te dei. A última vez em que te vi...você me avistou passando na rua, puxou forte pelo meu braço, segurou meus cabelos assanhando o penteado que eu demorei horas pra fazer, me beijou, e eu nem me importei com aqueles fios no meu rosto. Foi como eu tinha imaginado algumas vezes atrás. Então eu pensei que viver dói, continuei meu caminho enquanto você esperava alguma reação, e eu simplesmente achei que eu e você não nos pertencíamos mais.


*Texto inspirado na música do vanguart: the last time i saw you.
o texto não é inspirado também em nenhum ex namorado meu, antes que alguém ache isso.