quinta-feira, 3 de setembro de 2009

No hay banda


Ele disse algo em um espanhol baixo, de conteúdo privado, só da sua boca aos meus ouvidos. Aquele sorriso na face, um assanhamento característico. Lembrei da frase da Ana c. do dia anterior, malditas lembranças que não me deixam saber se sou eu ou se são os outros. Era apenas eu, eu, eu, eu, aquele velho ego a me sufocar, mas eu tento chegar ao outro, mesmo depois de desistir algumas vezes, não diria ser completamente. Você, você, você, você, esse maldito novo mundo a me desesperar. Sentou-se na mesinha ao lado, café preto pelando, imaginei figuras se formando no contraste da espuma, e perguntei a razão daquilo... pude perceber sua busca por Neruda, mas nenhuma resposta vinha. Sabes que eu pergunto coisas das quais já sei as respostas, mas eu não me canso. Imaginar as suas respostas, sendo eu quem as realiza, é meu maior prazer. Vai, responde o que eu penso. Até cogitei ser algo baseado em suas possibilidades, ledo engano. É tudo sobre o ‘você’ que eu invento. A minha invenção me deixa a cada cinco minutos, numa tentativa de proteção dessa tal felicidade e barquinhos a navegar, numa tal de paquetá. Acredito que essa tara de escrever em guardanapos e papéis de pão seja apenas para dominar as situações, colocar essas palavras nessa tua boca, sentindo esse coração de papel. O que você realmente pensa? Fala pra mim, minha cabeça é uma guerra de você. Tenho vontades de desistir, eu te falo. Digo ainda que você mudará essas teses, desistirá de mim, assim como eu quero agora. Esse grito intalado no peito, a minha eterna prostituição de cada espera...me diz algo inútil e totalmente metafórico, do tipo se a vida é uma estrada. Eu te pergunto tudo e sempre, mas você não responde, pelo simples fato de você não ser eu, de você não estar aqui, dentro de mim, essa sou eu. Em alguma língua desconhecida, já dentro de si, ele lambeu algumas palavras ao meu pescoço, acariciou meus braços desnudos e apenas me surpreendeu com algo de conteúdo privado, de sua boca para a minha.

12 comentários:

crap disse...

você gosta de repetir as perguntas e eu gosto de repetir as coisas que já disse. no fim, somos dois inseguros do caralho inventando pessoas baseadas nas pessoas que conhecemos, nas que somos.
é tudo bem engraçado...

Tony disse...

Insegurança é o caminho pra perda. E o medo de perder é que faz perder também.

Estêvão dos Anjos disse...

Achei a personagem tão insegura, egoísta e possessiva. Como o cara falou aí em cima, ela está insegura no relacionamento e busca sinais no parceiro que a acalme. Mas como ela msm diz, o ego dela a machuca, ela não está interessada em buscar essa segurança por meio de uma conversa, mas por meio de ações que ela espera que o cara realize e fantasia em cima disso.Ela está numa busca desesperada de encontrar alguem que não é essa pessoa que ela está, um amor antigo; por isso as expectativas frustadas e as cenas criadas e recriadas na cabeça; inclusive a da primeira frase do texto.

Eu entendi assim :p

crap disse...

silencio. no hay banda.




você tipo... rouba as coisas da carla, né?

Larissa disse...

Espanhol baixo. Nos ouvidos. Gostei. Haha :)

M.Henrique Leite disse...

Escutar o que já se sabe é confortante, de fato. Mas, às vezes é bom ouvir algo novo, mesmo que cause angústia precedente.

Ótimo texto, Binha =)

Ben-Hur Bernard, B. Bernard, Ben-Hur Bernard Pereira Costa (oficial), Biú (para as minhas crianças), Ben (para os amigos), BHB (para Aline Lemos) disse...

Eu não sei o que é isso: ego sufocante. Eu acho que eu deveria pensar mais um pouco em mim pra saber.

Não é novidade nos seus textos esse retrato que você pinta (de você mesma?) enquanto uma pessoa egoísta e que me angustia, pois os meus personagens de filme que eu mais odeio são os que maltratam as pessoas enlouquecidas de paixão. E você é tão legal...

Eu gosto, porque isso me incomoda. E eu gosto mais ainda porque você as vezes constroi um ambiente sem nem ao menos falar das paredes, só dos aromas...

parabéns!

beijo

gabriela disse...

muito bom, livinha!

darsh. disse...

eu trocaria o espanhol pelo ingles britanico.

mas é que sou metida.

Sarinha disse...

"sentindo esse coração de papel. O que você realmente pensa? Fala pra mim, minha cabeça é uma guerra de você."

aai, essas guerras... um dia elas vão passar! :x
:*!

Ana Clara disse...

adorei o texto!
ah, e espanhol é um idioma legal! uahsuahhh
besitos! uahsua =*

Nelson disse...

"É tudo sobre o ‘você’ que eu invento."

tenso, né?

eu penso assim também mesmo sabendo que espectativa é sinônimo de decepção.