domingo, 25 de outubro de 2009

Língua e Juízo.

Eu não gostava do gosto do gelo. Ele mordia sem cessar, lambia, se lambuzava com a água lhe escorrendo pelo pescoço, peito, umbigo, virilha, coxa, perna, calcanhar, chão. Era uma delícia, ou pelo menos parecia. A gota era sacanagem pura. Não sei, simplesmente nunca gostei do gosto que o gelo tinha. Mas o jeito que ele lambia o cubo translúcido...hum...me fazia querer gostar de gelo também. Então eu fantasiava. Por noites e noites, imaginei como seria ter o gelo à boca, a sensação gelada, disparando meus nervos, fazendo-me perceber que aquilo era gelo, os dedos já dormentes e molhados, maldita temperatura ambiente. Fantasia não tem gosto, só vontade, isso eu tinha, e muita. Ele lambia o gelo como ninguém, acredite...que vontade me dá, assim, de repente, de lamber todo esse gelo, e me lambuzar na poça transparente e quente que a minha língua vermelho fogo pode fazer.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Comentários sobre John

- John, como tu és idiota. Repara nas cenas da tua vida. Abril se despedaça na tua frente, não farás nada?, disse eu.

Ele tinha certa quantidade de luz cor de barro no canto esquerdo do rosto. Parecia suado, sujo, cara de cachorro moribundo. Cara de quem acha de menos, pra quem o fita, por sua vez, achando demais.


- Você sempre vê bobagem, não acredita nas verdades, e é o perfeito retrato da autodestruição. Tem medo de ter medo, de ter medo, de ter medo; fuma seu cigarro; toma seu café. John, você não sabe amar.


John levantou-se da cadeira, acendeu seu cigarro, bebeu seu café, e arrastou a sandália pelo piso cinza até a janela lateral. A meia lua refletia nos dois olhos negros, e john disparou:


- Espero que você lembre, o mais depressa possível, de quem você é, ou costumava ser. Seu coração costumava ser maior que sua boca.

-John, você não sabe amar.

-Um dia, você ainda morre sem saber. Sem saber que gosto a chuva tem; sem pensar que cheiro a grama tem; sem saber como voar deve dar medo.


-John, você não sabe amar.