quarta-feira, 10 de abril de 2013

Quero a unimultiplicidade

Há tempos eu vinha pensando sobre espiritualidade, a pouca idade me privou durante muito tempo de entrar em contato com certos aspectos dela. O desconhecido era maior do que a curiosidade, em certos casos não tive mesmo o interesse devido, ou até eu não tenha tido opções e pronto, como a maioria das pessoas não têm. Elas passam uma vida inteira recebendo conceitos intolerantes e nem desconfiam que o mundo é um tanto mais diversificado. Vamos dizer que eu tive sorte. Se eu acreditasse em coincidência, diria que tive mais ventura ainda, porque a vida me colocou em situações em que eu tive que ficar escancarada com o místico. Sempre oscilei em acreditar ou não em Deus, na verdade, eu nunca me peguei duvidando de sua existência, nunca soube direito é como deveria falar com ele, estar mais próxima. Em todo esse tempo, só conseguia entrar em contato, o mínimo que fosse, quando as tristezas eram maiores. Era como se o estado de espírito de alegria não fosse o suficiente para me aproximar de nenhuma divindade, e mesmo assim eram sempre conversas unilaterais, eu não queria conversar sozinha. A forma como esse contato era desenhada não me fazia o menor sentido.  Mais velha, eu tive conhecimento de tantas outras doutrinas religiosas, que talvez a minha confusão tenha aumentado, mas de uma forma positiva, se é que isso pode existir. Toda essa miscelânea pode confundir alguns do ponto de vista de que precisam escolher algo para acreditar, e passar a considerar todas as outras como inverdades. Eu não escolhi nada para acreditar, nada para recriminar, preferi sentir as boas vibrações que viessem pelo caminho, e isso aconteceu. Curiosa, sempre conversava com uma amiga que sabia bastante sobre espiritismo, tinha as minhas dúvidas e parecia uma criança, que sabe tudo e nada ao mesmo tempo, e pergunta, pergunta bastante. Eu perguntava tanto e questões tão ordinárias que às vezes eu ainda pensava em parar, mas elas continuavam surgindo. Então eu perguntava, muito e sem restrições, e era respondida com toda a paciência. Gostei bastante de tudo o que ouvi, tive medo, era como se um novo mundo se apresentasse a mim, através dessa minha amiga. Nunca me aprofundei na doutrina, aliás, esse texto não é exatamente sobre religião, é só sobre sentimento. Vez ou outra eu me deparo com essas vontades de ir além, mas o sobrenatural dá medo, e essas questões sensitivas sempre foram perturbadoras, pelo menos para mim. O momento atual é de conflito, desejo que alguma coisa se mostre presente, que o universo se revele ao menos um tanto, de alguma forma, e ao mesmo tempo que se cale, não me amedronte. Essa sensação eu até já tive, poucas vezes em que eu me senti perto de algo que representasse além de mim, em matéria e espírito, algo que calasse vozes altas e bagunçadas que se embaralhavam dentro da minha cabeça e do meu coração, e invadisse tudo com muita paz, uma paz que eu nunca havia sentido antes, uma paz que eu venho tentado sentir novamente muitas e muitas vezes, mas sem sucesso. Talvez seja por essa paz que as pessoas abdiquem um pouco da suas vidas e dediquem tempo ao que muitos de nós consideramos desnecessário. Ainda lembro da primeira vez em que eu pedi durante muitos minutos, com tanta força, que eu parasse de me sentir vulnerável ao desespero que sentia, e de alguma forma me senti ouvida. Esse tipo de coisa não é algo que se explica, e sim que se vivencia, senão não teria o nome de experiência, ou conhecimento adquirido pela prática. Como se eu tivesse apertado um interruptor, exatamente como aqueles que apagam e acendem luzes, eu estive em paz, e tive essa consciência. Naquele momento, eu sei que estive em contato com o que quer que isso possa ser nomeado: universo, mestre espiritual, amigo de luz, Deus. Eu não ouvi nada, eu não vi nada, eu só sabia que me sentia diferente, de uma forma tão abrupta que não era natural, havia algo mais ali, e eu me senti bem para descansar, adormeci. Do que isso pode ser chamado pouco importa, para mim, o real sentido disso tudo é que daquela vez eu obtive reciprocidade, e esse tipo de coisa não pode ser alcançado sempre e em qualquer momento, em qualquer crise. Eu só posso ser grata por respeitar o próximo no que ele acredita, inclusive no que ele deixa de acreditar. Aquela sensação eu não consigo mais esquecer, então, eu agradeço, digo obrigada, me sinto menos pó.